terça-feira, 5 de abril de 2011

Receberemos tudo o que pedirmos?

 

Considerações sobre a aplicação das palavras de Cristo.

Disse Jesus: “Em verdade, em verdade vos digo que tudo quanto pedirdes ao Pai, ele vo-lo concederá em meu nome” (João 16.23). Alguns anos depois, Paulo pediu, por três vezes, que Deus retirasse seu espinho da carne, mas isto não lhe foi concedido (2Co 12.7-9).
Será que estamos diante de uma evidente contradição bíblica? Quando pensamos assim, estamos, de fato, diante da nossa ignorância apenas.
A quem foram dirigidas as palavras registradas em João 16.23? A onze dos discípulos de Cristo (pois Judas Iscariotes havia se retirado). Mas vejamos o que o Senhor disse a respeito de Paulo em Atos 9.16: “Pois eu lhe mostrarei quanto lhe importa padecer pelo meu nome”.
É verdade que os discípulos também sofreram pelo evangelho, mas Jesus não disse a Paulo que tudo o que ele pedisse seria concedido.
Tomamos o primeiro texto para nós, mas nunca o segundo. Tomar posse de qualquer promessa bíblica pela fé nem sempre é um procedimento seguro. Nem todas as promessas bíblicas são para mim.
Estamos tocando em questões muito difíceis, eu reconheço. Afinal, o que é para nós e o que não é? Não podemos simplesmente jogar fora a Bíblia, considerando que tudo foi escrito para outras pessoas. Também não podemos tomar tudo para nós, literalmente. Estamos num beco sem saída? Não, mas o caminho é apertado.
Por exemplo: Não podemos tomar as promessas de Deus para Israel e aplicá-las ao Brasil, como alguns líderes têm feito. Não podemos tomar posse delas individualmente. Seria usurpação. Se assim fizermos, vamos querer também um pedaço da terra prometida. Aquelas promessas do Antigo Testamento fazem parte da aliança de Deus com os judeus e não com os gentios.
Deus disse a Salomão: “Pede-me o que quiseres que te dê” (1Rs 3.5). Vamos tomar para nós esta palavra também? Não. Senão, daqui a pouco, haverá pessoas mais sábias do que aquele grande rei de Israel. Isso não acontecerá, por mais fé que tenhamos.
Jesus chamou Pedro para andar sobre as águas. Nós também vamos andar, tomando posse daquele versículo pela fé? Não. Portanto, sejamos cuidadosos com o uso das Escrituras.
Precisamos encontrar indicativos que nos permitam aplicar a promessa a nós mesmos e a outras pessoas, além daquelas às quais Jesus falava diretamente.
Por exemplo, em outro momento, Jesus disse: “Estes sinais seguirão aos que crerem...” (Mc 16). Observe que ele não disse aos discípulos: “Estes sinais VOS seguirão”. Logo, a expressão “aos que crerem” nos inclui na promessa. Aleluia!

Vejamos outros exemplos que nos incluem:

“E rogo não somente por estes, mas também por aqueles que pela sua palavra hão de crer em mim”. (João 17.20.)

“Porque a promessa (do Espírito Santo) vos pertence a vós, a vossos filhos, e a todos os que estão longe: a quantos o Senhor nosso Deus chamar”. (At 2.39.)

Pode haver textos dirigidos especificamente aos discípulos ou a algum outro personagem bíblico que contenha uma promessa geral, mas precisamos examinar cada caso. O exame de outras passagens bíblicas que tratem do mesmo assunto poderá ser muito útil nesse tipo de esclarecimento.
A bíblia toda é a palavra de Deus para nós. Como pode ser, depois de tudo o que temos dito? Continua sendo, pois ali aprendemos princípios espirituais permanentes, que vão além do sentido literal do texto.
Em todas as promessas, mesmo que particulares, encontramos possibilidades. É possível Jesus me dar algo que eu lhe peço, assim como ele prometeu aos discípulos? Sim. Ele nos tem dado muitas coisas, mas não tudo o que pedimos, mesmo porque isto poderia ser perigoso.
É possível que eu sofra pelo evangelho, assim como Paulo? Sim.
Por outro lado, as promessas que nos alcançam diretamente nos dão certeza e não indicam apenas possibilidades.
O uso de passagens bíblicas sem qualquer critério conduz muitas pessoas à decepção com Deus. Cabe aos líderes corrigir tais distorções de entendimento, ou a falta dele.

A verdade é que precisamos descobrir o propósito de Deus para cada um de nós e não ficar escolhendo promessas bíblicas aleatórias e descontextualizadas, conforme o que mais nos agrada.
Paulo tinha um relacionamento com Jesus que não dependia de detalhes das experiências dos primeiros discípulos, mas os princípios e valores eram os mesmos.
Nós também precisamos ter vivas experiências com Jesus e saber o que ele quer de nós hoje, muito mais do que aquilo que queremos dele.

::Pr. Anísio Renato de Andrade
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Fonte: Portal Lagoinha.com

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